| Mateus,
21: 12-13
Marcos, 11: 15-17
Lucas, 19: 45-46
João, 2:14-17
Após
a célebre transformação
da água em vinho, em Caná
da Galiléia, Jesus, acompanhado de
sua mãe e alguns discípulos,
instalaram-se em Cafarnaum, nas proximidades
do lago de Genesaré.
Pequena, perto de seis mil habitantes, mas
movimentada, a cidade era um centro comercial,
particularmente de pesca, e também
posto militar romano.
Seria a residência de Jesus durante
algum tempo, sede de suas atividades. Dali
partiria para jornadas de divulgação
da Boa Nova.
***
Como estivesse próxima a páscoa
dos judeus, em que se comemorava a fuga
do Egito, o grupo foi a Jerusalém.
A cidade santa, sede do culto judeu, recebia
multidões de peregrinos. A população,
que normalmente andava perto dos cinqüenta
mil habitantes, chegava a quadruplicar.
As cerimônias do culto eram celebradas
no templo. Constituído por edifícios
que se destacavam na paisagem, cercados
por imenso muro, ocupava uma área
de aproximadamente cento e vinte mil metros
quadrados, equivalente a perto de quinze
campos de futebol.
Há meio século, desde o governo
de Herodes, o Grande, estava em reformas
de ampliação e embelezamento,
tão portentosas que somente seriam
concluídas três décadas
mais tarde.
Teria vida efêmera.
A magnificente edificação,
orgulho dos judeus, seria destruída
no ano 70 pelo general romano Tito, filho
do imperador Vespasiano que, seguindo instruções
de Roma, arrasou Jerusalém, em represália
a uma rebelião.
No Pátio dos Gentios, muros adentro,
onde se concentrava a multidão, fervilhava
intenso comércio, com dezenas de
barracas, assemelhado-se a um mercado agitado
e barulhento, admitido sem problemas pelas
autoridades religiosas, que recebiam parte
do lucros.
Eram vendidos bois, ovelhas, pombos para
os sacrifícios, bem como incenso,
óleo e outros apetrechos do culto.
Vendia-se também comida.
Os cambistas faziam muitos negócios.
Trocavam as moedas estrangeiras para os
judeus residentes em outros países.
As contribuições tradicionais
deviam ser em siclos, a moeda corrente na
Palestina. As estrangeiras tinham efígies
pagãs. Usá-las seria uma heresia
no recinto sagrado.
A troca era feita em bancas, que deram origem
aos bancos.
Banqueiros era os donos das bancas.
Hoje são os donos dos bancos.
***
Previsivelmente, tratando-se do “bicho
homem”, excessos e explorações
eram cometidos por comerciantes e cambistas,
tão interessados em encher suas bolsas
de dinheiro quanto os peregrinos em cumprir
seus deveres religiosos.
Dirigindo-se eles disse Jesus, lembrando
observações dos profetas Isaías
(56:7) e Jeremias (7:11):
– Está escrito: minha casa
será chamada casa de oração.
Vós, porém, a fazei covil
de ladrões…
O episódio é relatado também
pelos demais evangelistas, que o situam
no final do apostolado de Jesus.
João o coloca no início.
Em seu favor temos o fato de que teria sido
testemunha ocular. Estava com Jesus.
Mateus seria convertido mais tarde.
Marcos e Lucas não conviveram com
ele.
***
Todos os evangelistas comentam que as afirmativas
de Jesus foram precedidas de uma atitude
chocante e insólita. João
a descreve assim:
…e
tendo feito um azorrague de cordéis,
expulsou a todos do templo, as ovelhas e
os bois, derramou pelo chão o dinheiro
dos cambistas e virou as mesas.
Este
detalhe sempre me pareceu indigesto.
Não consigo imaginar Jesus com um
chicote na mão, derrubando bancas,
espantado animais, semeando confusão…
Fariam algo semelhante Mahatma Gandhi, Francisco
de Assis, Chico Xavier?…
Obviamente, não!
Por que Jesus, acima de todos eles; muito
mais que missionário – um preposto
de Deus – haveria de fazê-lo?
Reações dessa natureza, ainda
que inspiradas na indignação
diante do erro, são próprias
da imaturidade, que resvala facilmente para
a agressividade.
Jesus exaltava a mansuetude; ensinava a
humildade e a brandura; advertia que a violência
gera a violência; destacava que pessoas
comprometidas com o erro precisam de orientação,
não de retaliação.
Longe do fiscal truculento era um médico
das almas.
A sua missão era eliminar a maldade
estimulando o bem, algo incompatível
com a violência.
Ninguém
cura uma ferida pisando nela.
Confrontemos
essa suposta reação com sua
serenidade diante do julgamento que deu
início ao drama do calvário,
situação incomparavelmente
mais grave, que perpetrou flagrante e execrável
injustiça.
Concluiremos que Jesus jamais agiria como
está registrado.
***
Considere, leitor amigo, que aquele comércio
estava no contexto do culto.
Favorecia os peregrinos.
Se animais e aves eram usados no cerimonial,
alguém devia fornecê-los.
Se havia necessidade de trocar moedas, mister
a presença dos cambistas.
Entre advertir quanto aos excessos e agredir
os comerciantes há um abismo.
***
É
preciso observar, na análise do Evangelho,
o joio dos interesses humanos misturado
ao trigo das revelações.
Durante séculos os textos evangélicos
eram manuscritos. Nem sempre os copistas
guardavam fidelidade aos originais, na base
de quem conta um conto aumenta um ponto
– ou o suprime.
Até que os textos definitivos fossem
compilados, a partir do século V,
inúmeras adulterações
aconteceram.
Provavelmente a suposta violência
no templo tenha sido uma delas. Era importante
para os teólogos dos primeiros séculos
configurar a rejeição de Jesus
àquelas práticas que não
faziam parte do culto cristão.
***
Outro
detalhe estranho:
Jesus referir-se ao templo como a casa de
Deus.
A morada divina é o Universo.
Deus está em toda parte, não
apenas no interior de edificações
consagradas ao culto.
E o santuário sagrado onde devemos
cultuar a divindade está em nosso
próprio coração.
Esse o pensamento de Jesus, que explicava:
O
Reino de Deus está dentro de vós
(Lucas, 17:21).
***
Bem mais grave e lamentável é
o comércio que propomos à
divindade.
O que nos leva a freqüentar o centro
espírita, o templo protestante, a
igreja católica ou outra denominação
religiosa?
•
Buscar uma vida mais equilibrada e digna?
•
Refletir a respeito de nossas responsabilidades?
•
Superar vícios e mazelas?
•
Participar nos serviços do Bem?
Ou
apenas desejamos que Deus:
•
Remova nossas dificuldades?
•
Solucione nossos problemas?
•
Restaure nossa saúde?
•
Conceda-nos a felicidade?
Não
é isso uma espécie de escambo,
uma troca que não envolve dinheiro?
Dou minha presença, submeto-me ao
culto com a intenção de algo
receber…
Tanto é assim que muita gente deixa
de participar porque não recebeu
o benefício que buscava, o favor
que esperava.
Isso é comercializar o sagrado.
***
Nas relações comerciais existe
o compromisso de determinado pagamento pela
mercadoria recebida ou serviço prestado.
Na atividade religiosa costumamos fazer
o mesmo.
•
Se receber as bênçãos
desejadas serei um contribuinte…
•
Se resolver meus problemas trabalharei pelos
pobres…
•
Se alcançar a cura serei uma pessoa
melhor…
Há quem faz adiantamentos:
•
Um donativo…
•
Uma visita a família carente…
•
Um exercício de tolerância…
Alguns
pregadores exploram essa tendência.
Apoiam-se em insólita “teologia”:
A felicidade comprada.
Enfatizava
um mercador da fé:
– Não esqueçam! Quanto
mais dinheiro oferecerem à nossa
causa, mais felicidade Deus lhes dará!
Parecia um camelô a apregoar o seu
produto, como se a felicidade fosse uma
mercadoria, não uma realização
íntima.
Animado, um homem fez a doação
de valioso terreno.
Passou-se o tempo. A felicidade não
chegou.
Indignado, processou a igreja por quebra
de contrato, exigindo a devolução
do imóvel.
***
Há fiéis que enunciam seus
projetos de comércio com a divindade
na forma de promessas solenes a serem cumpridas
depois de receberem os benefícios
desejados.
Algumas são bastante ingênuas,
relacionadas com inúteis mortificações:
•
Carregar uma cruz…
•
Subir escadarias de joelhos…
•
Privar-se de alimentos…
Deus não quer que mortifiquemos o
corpo e sim que abrandemos o coração.
Por isso, o sacrifício mais agradável
ao Senhor é renunciar aos interesses
pessoais para fazer algo em favor do próximo.
Os que insistem em comercializar os dons
sagrados, em fazer propostas e promessas,
acabam decepcionados, porque entre o que
pretendemos e o que recebemos, há
um princípio subordinado à
justiça perfeita:
O
merecimento.
Por isso, em defesa de nossa paz, não
devemos imaginar o culto religioso como
um canal aberto para obter favores do Céu.
Melhor situá-lo como uma convocação
para fazer o que o Céu espera de
nós
Livro
"Levanta-te!"
Editora CEAC - Bauru
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