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Marcos,
2:23-28
Lucas, 6:1-5
A patroa tentava acertar o descanso semanal
da serviçal.
– Quero no sábado.
– Terá folga no domingo, conforme
o costume.
– Não vai dar.
– Por quê?
– Sou sabatista.
– Não entendi…
– Está na Bíblia. O
dia consagrado ao Senhor é o sábado.
A serviçal mostrou-se irredutível.
Sem acordo, desistiu do emprego.
Inúmeras donas de casa vêem-se
às voltas com esse problema.
Algumas das múltiplas facções
em que se dividiu a reforma protestante
promovida por Lutero encasquetaram que devem
observar a orientação bíblica,
guardando o descanso no sábado.
Geram sérios embaraços para
seus profitentes, porquanto desde a Idade
Média a cultura ocidental consagrou
o domingo, celebrando a ressurreição
de Jesus.
O sabatista pretende reviver uma orientação
arcaica, superada, que não condiz
com a atualidade. Sua intransigência
é um atestado eloqüente dos
problemas que o fanatismo ocasiona ao observar
literalmente textos religiosos que dizem
respeito a outros tempos, outros costumes,
sem sabor de perenidade.
***
Foi
registrado por Moisés, na Tábua
da Lei, terceiro mandamento:
Lembra-te do dia de sábado, para
o santificar.
Seis dias trabalharás, e farás
toda a tua obra.
Mas o sétimo dia é o sábado
do Senhor teu Deus; não farás
nenhum trabalho, nem tu, nem teu filho,
nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua
serva, nem o teu animal, nem o forasteiro
das tuas portas para dentro; porque em seis
dias fez o Senhor os céus e a Terra,
o mar e tudo o que neles há, e ao
sétimo dia descansou; por isso, o
Senhor abençoou o dia de sábado
e o santificou.
Segundo a alegoria bíblica Deus,
como diligente construtor, trabalhou duro
e edificou o Universo, incluindo a Terra
e os seres vivos, em seis dias.
A Ciência nos diz que gastou um “pouquinho”
mais: perto de cinco trilhões
e quinhentos bilhões…
E não há como contestar fatos
científicos e cálculos astronômicos,
envolvendo a formação do Universo
há aproximadamente quinze bilhões
de anos; a Terra há quatro bilhões
e meio; o aparecimento do homem há
cerca de um milhão de anos.
Mas, voltemos à Bíblia.
Concluído o árduo labor, o
Senhor, como se fora um ser humano, sentiu
necessidade de repouso.
Descansou no sétimo dia.
Não se sabe o que fez a partir do
oitavo.
Dizem as más línguas que continua
descansando, porquanto não se entendem
os homens e a confusão reina na Terra.
***
Quando Moisés impôs a orientação
para o sábado, praticamente instituiu
a primeira legislação trabalhista,
atendendo a justa necessidade de descanso
para o servo, o animal, o escravo…
Ocorre que, como fazia habitualmente, proclamou
tratar-se de ordem divina. Jeová
o determinava.
As penalidades eram absurdamente severas.
Como está em Números, um dos
livros sagrados do judaísmo, no capítulo
15, um homem foi surpreendido a amontoar
lenha no sábado.
Imediatamente foi levado à presença
de Moisés.
Registram os versículos 35 e 36:
Então
disse o Senhor a Moisés:
– Tal homem será morto. Toda
a congregação o apedrejará
fora do acampamento.
Portanto, toda a congregação
o levou para fora do acampamento, e o apedrejaram
até que morreu, como o Senhor ordenara
a Moisés.
Pobre
Jeová! Tinha costas largas…
***
Ao
tempo de Jesus, que viveu perto de mil,
duzentos e cinqüenta anos depois, vemos
essa orientação levada a extremos.
No dia consagrado ao Senhor era proibido
desatar um nó, acender o fogo, levar
um objeto para fora de casa, fazer mudança,
viajar…
Sair de casa, somente para ir à sinagoga.
A vida ficava complicada.
Era preciso cuidado para não se fazer
nada que pudesse ser caracterizado como
uma violação.
Alguns judeus radicais evitavam até
a satisfação de necessidades
fisiológicas para não macular
o sábado com seus excrementos. Herético
desarranjo intestinal seria um desastre…
Para Jesus estas disciplinas não
passavam de tolices sustentadas pelo fanatismo.
Em pleno sábado visitava, curava,
ajudava, orientava, viajava…
***
Não tardaram os problemas com o judaísmo
dominante.
Logo após a controvérsia por
causa do jejum, Jesus passava pelas searas
com os discípulos. Estes, famintos,
colhiam espigas que debulhavam e comiam.
Provavelmente era trigo.
Os fariseus se escandalizaram, não
porque estivessem invadindo propriedade
alheia. Segundo a orientação
mosaica, os viajantes podiam fazê-lo,
desde que apenas para saciar a fome, sem
levar nada (Deuteronômio, capítulo
23).
Sua indignação dizia respeito
ao dia.
Era sábado!
Aqueles galileus atrevidos estavam exercitando
uma atividade proibida no dia consagrado
ao Senhor!
Pacientemente, reafirmando seu invejável
conhecimento das escrituras, Jesus explicou:
Nunca lestes o que fez David quando
teve fome, ele e os que com ele estavam?
Como entrou na casa de Deus, tomou e comeu
os pães da proposição,
que somente aos sacerdotes era lícito
comer, e os deu também aos que estavam
com ele?
Na
liturgia judaica, pães da proposição
eram consagrados ao Senhor, de uso reservado
aos sacerdotes. Numa circunstância
especial, David e seus companheiros alimentaram-se
deles.
Se David, apenas um candidato a rei, empenhado
em estabelecer um novo reino em Israel,
colocara-se acima daquela prescrição,
por que Jesus, que vinha instituir algo
muito mais importante, um reino divino,
não poderia sobrepor-se ao sábado?
E acentuou, escandalizando seus opositores:
–
O sábado foi feito para o homem e
não o homem para o sábado.
Argumento incontestável.
O sábado viera para melhorar a vida,
não para complicá-la.
Excelente existir uma legislação
trabalhista que fixa o descanso semanal
ou um princípio religioso que consagra
determinado dia para o culto.
Mas, se nesse dia estamos absolutamente
proibidos de tomar iniciativas; se nos é
vedado decidir se queremos ou não
arrumar a cama, limpar a casa, preparar
uma refeição, cortar as unhas,
efetuar um passeio ou ir ao cinema, então
é melhor dispensar esse suposto benefício
que nos oprime, cerceando nossa liberdade.
Espantoso que após dois mil anos
de Cristianismo tenhamos seitas cristãs
pretendendo observar princípios mosaicos
revogados por Jesus, complicando a vida
de seus profitentes.
Praza aos Céus não decidam
levar às últimas conseqüências
semelhante orientação. Seremos
todos apedrejados!
***
Como
todos os fanáticos, os fariseus mostravam-se
impermeáveis às ponderações
de Jesus nas controvérsias que levantavam.
O dia consagrado ao Senhor seria motivo
de novas investidas, em outras oportunidades.
No sábado seguinte Jesus foi à
sinagoga.
Ali estava um homem com a mão direita
ressequida.
A expressão, consagrada em quase
todas as traduções da Bíblia,
não exprime com fidelidade sua condição.
Só se justificaria se houvesse a
obstrução das artérias
e cessasse a circulação sangüínea.
Seria impossível conviver com esse
problema. A mão logo gangrenaria,
colocando sua vida em risco.
Provavelmente sofria uma atrofia muscular.
Segundo textos apócrifos, trava-se
de um pedreiro que teria implorado a Jesus
o curasse, a fim de que pudesse retomar
o exercício de sua profissão.
Os fariseus, vendo que Jesus dispunha-se
a ajudá-lo, intentaram, como se tornara
hábito, compromete-lo.
–
É lícito curar no sábado?
Ao que respondeu Jesus:
–
Qual dentre vós será o homem
que tendo uma ovelha e, num sábado
esta cair numa cova, deixará de esforçar-se
por tirá-la dali? Ora, um homem vale
muito mais do que uma ovelha. Logo, é
lícito fazer o Bem no sábado.
O raciocínio de Jesus, como sempre,
foi irretocável.
Não havia o que contestar.
Calaram-se os fariseus e ele disse ao doente:
–
Estende a mão.
O homem obedeceu e no mesmo instante sua
mão ficou sã.
Jesus partiu, sempre acompanhado de seus
discípulos e pela multidão.
Comenta o evangelista Marcos:
Tendo saído, os fariseus tomaram
logo conselho com os herodianos contra ele,
procurando ver como o matariam.
Vê-se que já nesses primeiros
contatos com Jesus, os fariseus reagiam
aos seus ensinamentos, não se conformando
com aquele pretensioso galileu que ousava
contestar as tradições do
judaísmo. E articulavam com os membros
de um partido político que apoiava
Herodes Ântipas o movimento que culminaria
com sua morte.
***
A controvérsia do sábado lembra
as convenções humanas.
São úteis mas, se levadas
a extremos de intransigência, deixam
de servir o homem e passam a escravizá-lo.
Todo estabelecimento comercial tem horário,
obedecendo a uma regulamentação
do Estado. Os bancos, por exemplo, encerram
suas atividades para o público geralmente
às dezesseis horas. Em expediente
interno completam o processamento dos papéis.
Um cliente chega com dois minutos de atraso
para pagar determinado imposto. No dia seguinte
haverá multa. Entretanto, não
o deixam entrar, sob alegação
de que é preciso obedecer ao horário.
Seria mais fácil e simpático
abrir uma exceção, sem prender-se
à rigidez do regulamento. É
o que se chama de flexibilidade ou, popularmente,
jogo de cintura.
Um rapaz budista concordou em casar-se em
igreja católica, atendendo às
convicções religiosas da noiva.
O sacerdote exigiu que os noivos participassem
de um curso preparatório e se submetessem
a determinados sacramentos.
Trata-se de uma convenção
aceitável e útil para os profitentes
católicos. Mas para o adepto de outra
religião deveria estar contida nos
limites da opção, em saudável
exercício de fraternidade. Se levada
ao pé da letra, com intransigência
nada fraterna, gera um impasse.
O noivo procurou inúmeros sacerdotes,
até encontrar um mais esclarecido
que o dispensou daquelas preliminares.
***
Durante décadas, em nosso século,
a civilização ocidental adotou
para os homens a convenção
dos cabelos curtos, barba raspada.
Quando os jovens resolveram deixar crescer
os cabelos e a barba, levantaram-se vozes
intransigentes, chamando-os de marginais
e desordeiros.
Os pais ficavam possessos quando os filhos
adotavam a nova moda.
Por que?
Não há nenhuma lei que obrigue
as pessoas a aparar os cabelos e raspar
a barba.
Alguém prefere o contrário?
– problema dele.
Ficamos incomodados? – problema nosso.
Algo curioso aconteceu:
Para muitos jovens o cabelo comprido e a
barba também se transformaram em
convenções. E se alguns preferiam
o contrário, eram taxados de tolos
“filhinhos do papai”.
Em defesa da liberdade de não se
submeterem à convenção
dos cabelos aparados sem barba, tornavam-se
escravos dos cabelos compridos com barba.
As convenções são
úteis, mas devemos encará-las
com espírito aberto, sem condicionamentos.
Caso contrário, em determinadas circunstâncias,
perderemos a iniciativa e seremos dominados
por elas, esquecendo que foram feitas para
servir o Homem e não para oprimi-lo.
Livro
"Levanta-te!"
Editora CEAC - Bauru
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