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João,
4:46-54
Segundo
João, Jesus esteve dois dias na Samaria.
Os habitantes da região maravilharam-se
com sua sabedoria. Reconheceram nele alguém
muito especial.
Depois voltou à Galiléia,
onde foi recebido com entusiasmo.
Espalhavam-se rapidamente as notícias
sobre os prodígios que operava e
a mensagem que transmitia.
Eram tempos gloriosos.
O Céu parecia mais próximo
da Terra!
Tão maravilhosa era a capacidade
daquele mestre nazareno em refletir o poder
e a grandeza de Deus que haveriam de confundi-lo
com o próprio Criador.
***
Em Caná, foi procurado por alto funcionário
de Herodes Ântipas.
A Palestina, sob dominação
romana, estava dividida em quatro regiões
administrativas, chamadas tetrarquias:
Galiléia, Judéia, Peréia
e Samaria.
Para melhor acomodar as populações
ao jugo que lhes era imposto os romanos
costumavam nomear filhos da terra como seus
representantes.
Herodes, membro da aristocracia judaica,
governava a Galiléia. Chamado rei
pelos aduladores, era mero títere
de Roma.
O visitante vinha de Cafarnaum.
Não viajava em missão oficial.
Não era o representante do tetrarca
quem ali estava. Apenas angustiado pai que
lhe suplicava “descesse e curasse
o seu filho, que estava à morte”.
Certamente conhecia Jesus, sabia de seus
poderes, tanto que não vacilou em
percorrer perto de trinta quilômetros
que separavam Cafarnaum de Caná,
a fim de implorar sua intervenção.
***
Ao
ouvir a solicitação Jesus
comentou:
– Se não virdes sinais de prodígios,
de modo algum crereis.
O visitante ilustre reiterou, angustiado:
–
Desce, Senhor, antes que meu filho morra!
A insistência revelava sua convicção
de que Jesus salvaria o menino..
Falava em descer porque havia um desnível
de setecentos metros entre Caná,
nas montanhas, e Cafarnaum ao nível
do lago de Genesaré. Algo semelhante
a descer de São Paulo, no planalto,
para Santos, à beira-mar.
Jesus o fitou com bondade e afirmou, tranqüilo:
–
Vai! Teu filho vive.
O representante do tetrarca sentiu a força
daquela afirmativa e acreditou.
Cheio de ansiedade, partiu.
Ainda não chegara ao seu lar e já
os servos vinham ao seu encontro, eufóricos,
a dizer-lhe que o menino estava bem.
Quis saber a que horas se dera a cura.
–
Ontem, à hora sétima, a febre
o deixou.
Ele estivera com Jesus naquela tarde.
O leitor estranhará, certamente,
a informação de que o menino
livrara-se da febre no dia anterior.
É que para os judeus o dia começava
no poente, quando o sol declina, por volta
das dezoito horas.
Daí a expressão ontem, já
que o representante de Herodes encontrou
os servos ao anoitecer. A hora sétima
corresponde às treze horas, exatamente
quando se dera o encontro com Jesus.
Era o segundo prodígio operado em
Caná. Mais um nos muitos que caracterizariam
seu apostolado de bênçãos.
***
Significativa
a observação de Jesus. Ele
seria aceito pela multidão basicamente
em razão das maravilhas e curas que
operava. Poucos consideravam a excelência
de seus princípios.
Aceito, portanto, mas pouco observado, escassamente
seguido, raramente imitado.
Muitos foram beneficiados, sem se ligarem
à sua mensagem. Não se conhece
nenhum cego, surdo, paralítico ou
mudo curado, a participar da comunidade
cristã.
Nenhum deles esteve presente no julgamento
de Jesus para defendê-lo, atestando
sua integridade moral, seus poderes maravilhosos.
Nenhum deles o acompanhou na via-crúcis,
disposto testemunhar fidelidade aos seus
princípios.
Temos exemplo típico em Lucas (17:11-18),
que relata uma ação prodigiosa
de Jesus.
Numa de suas viagens, à entrada de
uma aldeia, surgiram dez leprosos. Não
podiam aproximar-se, em virtude dos rigorosos
costumes da época. Eram considerados
imundos.
Clamaram de longe:
–
Jesus, Mestre, tem misericórdia de
nós.
Ele respondeu:
–
Ide e mostrai-vos aos sacerdotes.
Para retornar ao convívio social,
todo portador de moléstia contagiosa
devia submeter-se a exame de um sacerdote
e dele receber o atestado da cura.
Cumprindo a determinação os
leprosos partiram, confiantes de que seriam
beneficiados por aquele famoso taumaturgo.
Esse fervor caracteriza o comportamento
das pessoas que, desenganadas pela medicina
da Terra, apelam para os poderes do Céu.
E mais uma gloriosa intervenção
de Jesus aconteceu.
Em plena caminhada, os dez homens perceberam
que a pele se recompunha, as manchas desapareciam…
A cura, tão ardentemente desejada,
consumava-se!
Um deles apenas, por sinal samaritano, voltou
para agradecer, glorificando a Deus em altas
vozes.
Perguntou Jesus aos circunstantes:
–
Não foram dez os que foram limpos?
Onde estão os nove? Não houve
quem voltasse para dar glória a Deus
senão este estrangeiro?
Péssima média!
De dez beneficiados por Jesus, um apenas
deu-se ao trabalho de lhe agradecer, e nem
sabemos se foi além disso. Não
há notícias sobre possível
participação na comunidade
dos discípulos.
É assim mesmo.
Essas reações são típicas
da natureza humana.
O fenômenos, mesmo quando envolvam
prodígios de cura, funcionam como
fogos de artifício.
Empolgam, atraem, deslumbram, mas logo passam,
sem deixar rastros.
Iluminam
o Céu, sem grandes repercussões
na Terra.
***
Algo
semelhante ocorre com o Espiritismo.
Milhares de pessoas passam pelo Centro Espírita
Amor e Caridade, em Bauru, anualmente. Se
todos os beneficiários dos serviços
de passes e atendimento espiritual se convertessem,
em breve teríamos a maior comunidade
espírita da Terra.
Assim como nos tempos de Jesus, as pessoas
continuam preocupadas com o imediatismo
terrestre, sem cogitações
espiritualizantes. Desejam apenas a cura
de seus males e solução de
seus problemas. Aceitam os princípios
doutrinários, confiam na proteção
dos Espíritos, colhem de suas dádivas,
mas…
Falta-lhes algo que Michel Quoist define
maravilhosamente, num poema inesquecível:
Saí,
Senhor,
Lá fora os homens saíram,
Iam,
Vinham,
Andavam,
Corriam.
As bicicletas corriam,
Os automóveis corriam,
Os caminhões corriam,
A rua corria,
A cidade corria,
Todo o mundo corria.
Corriam todos, para não perder tempo:
Corriam ao encalço do tempo,
para recuperar o tempo,
para ganhar tempo.
Até
logo, doutor, desculpe-me – não
tenho tempo.
Passarei outra vez, não posso esperar
mais – não tenho
tempo.
Termino esta carta – pois não
tenho tempo.
Queria tanto te ajudar – mas não
tenho tempo.
Não posso aceitar, por falta de tempo.
Não posso refletir, nem ler, ando
assoberbado – não
tenho tempo.
Gostaria de rezar – mas… eu
não tenho tempo.
Compreendes,
Senhor, eles não tem tempo.
A criança está brincando,
não tem tempo agora mesmo…
mais tarde…
O estudante tem seus deveres a fazer, não
tem tempo…
mais tarde…
O universitário tem lá suas
aulas, e tanto, tanto trabalho
que não tem tempo… mais tarde…
O rapaz pratica esporte, não tem
tempo… mais tarde…
O que casou, há pouco, tem sua casa,
deve organizá-la,
não tem tempo… mais tarde…
O pai de família tem seus filhos,
não tem tempo… mais
tarde…
Os avós têm seus netos, não
têm tempo… mais tarde…
Estão doentes. Precisam tratar-se…
não têm tempo…
mais tarde…
Estão à morte, não
têm…
Tarde demais… não tem mais
tempo.
Assim
correm todos os homens atrás do tempo,
Senhor.
Passam correndo pela Terra
apressados,
atropelados,
sobrecarregados,
enlouquecidos,
assoberbados,
Nunca chegam, falta-lhes tempo,
Apesar de todos os esforços, falta-lhes
tempo,
Falta-lhes mesmo muito tempo.
Com certeza, Senhor, erraste os cálculos.
Há um engano geral:
Horas curtas demais,
Dias curtos demais,
Vidas curtas demais.
Tu
que estás fora do tempo, Senhor,
sorris ao ver-nos
assim brigar com ele,
E sabes o que fases.
Não te enganas quando distribuis
o tempo aos homens,
A cada um dás o tempo de fazer o
que queres que faça.
Mas é preciso não perder tempo,
não esbanjar tempo,
não matar o tempo,
Pois o tempo é um presente que nos
dás.
Presente perecível,
Um presente que não se conserva.
Tenho
tempo, Senhor,
Tenho todo o meu tempo,
Todo o tempo que me dás,
Os anos de minha vida,
Os dias de meus anos,
Os minutos de meus dias,
São todos meus.
Cabe-me preenchê-los
tranqüilamente,
calmamente,
Mas preenchê-los inteirinhos, até
a borda,
Para dá-los a Ti
– e que, da água sem sabor,
faças um vinho generoso
como outrora, em Caná,
fizeste para as bodas humanas.
Nesta
noite eu não te peço, Senhor,
o tempo de fazer
isto e depois aquilo,
Peço-te a graça de fazer,
conscienciosamente, no tempo
que me dás, o que queres que eu faça.
Livro Tua fé te salvou
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