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Lar
em festa:
– Nasceu alguém?
– Morreu.
– Era tão ruim assim?
– Era muito bom!
– Regozijam-se com sua morte?
– Festejamos sua liberdade.
– Estava preso?
– Libertou-se do corpo.
Este diálogo aparentemente absurdo
teria cabimento em antigas culturas orientais.
Sabiamente pranteavam o nascimento e festejavam
a morte, partindo de dois princípios:
•
Nascer é iniciar uma jornada de dores
e atribulações, enfrentando
longo degredo neste vale de lágrimas.
•
Morrer é desvencilhar-se das amarras
e ganhar a amplidão.
São
perfeitamente compatíveis com a Doutrina
Espírita, que nos fala da reencarnação
como uma experiência difícil,
complicada, mas necessária, no estágio
de evolução em que nos encontramos.
É, digamos, uma materialização
a longo prazo, uma armadura de carne que
vestimos, a limitar nossas percepções.
Ligação tão íntima,
tão entranhada, que o corpo passa
a integrar nossa alma, como um apêndice,
submetendo-nos a vicissitudes como a dor,
o desajuste, a doença, a senilidade,
próprios dos seres biológicos,
a se acentuarem à medida que se desgastam
suas células.
Por outro lado, o esquecimento das experiências
anteriores tende a gerar insegurança.
O reencarnante situa-se perdido no presente,
a caminhar para o futuro sem o referencial
do passado.
E há, ainda, o contato com pessoas
que dizem respeito ao pretérito.
Estará às voltas com sentimentos
gratuitos e contraditórios de simpatia
e antipatia, afinidade e rejeição,
envolvendo gente de seu relacionamento,
particularmente os familiares.
O consolo está em saber que se trata
de uma contingência evolutiva, no
estágio em que nos encontramos.
A carne é a lixa grossa que desbasta
nossas imperfeições mais grosseiras.
O esquecimento do passado é a bênção
do recomeço, a fim de que possamos
superar paixões e fixações
que precipitaram nossos fracassos no pretérito.
A convivência com afetos e desafetos
de vidas anteriores é a oportunidade
de consolidar afeições e desfazer
aversões.
Mas… enfrentar tudo isso em estado
de amnésia, sem a mínima noção
do porquê dessas experiências!…
Barra pesada!
***
Já
desencarnar é o alijar da armadura,
a retomada das percepções,
o retorno à amplidão, a celebração
da Vida em plenitude, sem as limitações
humanas.
Se houvermos conquistado um mínimo
de vitórias, na luta contra nossas
imperfeições; se algo fizemos
em favor do bem comum, combatendo o egoísmo;
se aprendemos a conjugar os verbos amar,
perdoar, compreender, na vivência
do Evangelho, teremos festiva recepção,
marcada pela alegria da missão cumprida.
Estavam certas as antigas culturas orientais.
Quem sabe, um dia, quando essa realidade
for melhor assimilada pela Humanidade, haveremos
de mudar as comemorações do
dois de novembro.
Não mais o dia dos mortos.
Mais apropriadamente, o dia dos vivos!
Livro
Abaixo a Depressão
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