| Senhor,
fazei-me instrumento de Vossa paz.
Onde haja ódio, consenti que eu semeie
amor.
Perdão, onde haja injúria.
Fé, onde haja dúvida.
Esperança, onde haja desespero.
Luz, onde haja escuridão.
Alegria, onde haja tristeza.
Oh! Divino Mestre!
Permiti que eu não procure tanto
ser consolado, quanto consolar.
Ser compreendido, quanto compreender.
Ser amado, quanto amar.
Porque é dando que recebemos.
Perdoando que somos perdoados.
E é morrendo que nascemos para a
Vida Eterna.
Certamente você conhece essa oração,
leitor amigo!
Depois do Pai Nosso, essa rogativa de Francisco
de Assis é a mais popular, obrigatória
em qualquer antologia do sublime.
O missionário do Cristo sensibiliza
e emociona.
Há mananciais inesgotáveis
de espiritualidade em suas expressões
impregnadas de divino magnetismo.
Nos momentos de angústia, ela é
um refrigério abençoado para
nossas almas.
Raras pessoas, entretanto, percebem que
a oração de Francisco de Assis
transcende o mero conforto ou consolação
que buscamos.
Trata-se,
fundamentalmente, de uma orientação
de vida, sob inspiração do
Evangelho.
Oportuno,
portanto, que nos detenhamos em suas afirmações,
habilitando-nos a benefícios bem
mais consistentes e duradouros.
***
Pede o santo de Assis, inicialmente:
Senhor, fazei-me instrumento de Vossa paz.
Seria interessante que indagássemos
com freqüência:
“Sou
um instrumento da paz?”
“Em minha presença as pessoas
sentem-se mais tranqüilas, animadas
e felizes?”
“Ou a paz se despede quando vou chegando?”
Perguntei a uma senhora amiga sobre sua
família.
– No momento, muito bem! Estamos em
paz! – afirmou feliz.
E, sorriso brejeiro, completou:
– Meu marido está viajando…
Seu companheiro é um espantalho da
paz.
Quando está em casa, salve-se quem
puder!
Não dá sossego a ninguém.
A primeira reflexão, portanto, em
torno da prece de Francisco de Assis, sugere
que analisemos nossa vida e verifiquemos,
cuidadosamente:
Sustentamos
a paz ou impomos a agitação?
***
Onde houver ódio que eu semeie o
Amor.
Mahatma Gandhi dizia que alguém capaz
de realizar a plenitude do amor neutralizará
o ódio de milhões.
Ele mesmo o fez, conseguindo que a Índia
se libertasse do jugo inglês sem banhos
de sangue, com sua filosofia da resistência
pacífica e da não-violência,
superando seculares ressentimentos dos indianos
contra seus dominadores.
Certamente estamos distanciados de suas
realizações.
Não obstante, podemos promover a
paz, evitando que mágoas fermentem
no coração alheio e se transformem
nesse sentimento desajustante que é
o ódio.
Há uma fórmula para isso:
A
profilaxia dos contrários.
Certa feita, funcionário de uma grande
empresa estava furioso com o gerente que
freqüentemente a transferia de setor.
Certamente estava a pressiona-lo para que
se demitisse. Cogitava disso quando um colega,
um semeador da paz, disse-lhe.
– Está enganado quanto ao nosso
chefe, meu amigo. Ele o admira muito, sabe
que é eficiente e digno de confiança.
Por isso o tem encaminhado para setores
onde há problemas, consciente de
que pode resolvê-los.
Sua intervenção pacificou
o companheiro que passou a ver com simpatia
as iniciativas do gerente a seu respeito.
A profilaxia dos contrários é
infalível.
Desarmamos a pessoa que fala mal de alguém
passando a idéia de que o desafeto
não tem a mesma opinião a
seu respeito.
***
Perdão, onde haja injúria..
Diz a esposa sofredora:
– Meu marido me abandonou por outra
mulher. Não me conformo! A vida ficou
complicada, não tem mais graça…
Estou muito infeliz!
Diz o semeador da paz:
– A mágoa é como um
espinho cravado no peito. Machuca dói,
incomoda… Perdoe para libertar-se.
Esqueça.… Siga o seu caminho.
Segundo alguns exegetas, nos textos evangélicos
em grego, perdoar é sinônimo
de desligar.
Exatamente o que ocorre conosco quando perdoamos.
Desligamo-nos da mágoa, do ressentimento…
Livramo-nos da intranqüilidade.
Tiramos o espinho de nosso peito.
***
Fé, onde haja dúvida..
No atendimento fraterno, num Centro Espírita,
a voluntária consolava sofrida mulher,
cujo filho falecera vitimado por mal súbito.
– Confie em Deus, minha irmã.
Considere que nada ocorre sem Seu consentimento.
Quando manifestamos submissão à
Sua Vontade tudo fica mais fácil.
A mulher não se conformava:
– Você fala assim porque não
sabe o que é perder um filho na flor
da idade, estudante de medicina, futuro
brilhante! Alguém que resumia minhas
mais caras esperanças! Não
dá para aceitar!
– Sei sim, minha amiga. Passei por
experiência semelhante. Meus dois
filhos faleceram num acidente. A certeza
de que apenas transferiram residência
para além-túmulo é
o meu alento. Sei, também, que nossos
amados sofrem com nossa inconformação
e que ficam felizes quando cultuamos sua
memória exercitando coragem e o bom
ânimo. O consolo maior é saber
que estão por perto.
– Você costuma sentir a presença
deles?!
– Sim, freqüentemente.
– Como faz para receber essa dádiva?
–
Sempre acontece quando me disponho a servir.
***
Esperança, onde haja desespero.
Reclama o favelado.
– Não há por que viver!
Minha vida é um tormento. Minha mulher
está doente. Eu, desempregado. Os
filhos passam fome…
Afirma
o semeador de esperança.
– Trouxe alimentos para seus filhos
e remédio para sua esposa. Ajudarei
você a conseguir emprego. Coragem!
Com a ajuda de Deus e o nosso empenho
tudo há de melhorar!
***
Luz,
onde haja escuridão.
Diz
o doente:
– Oh! Meu Deus, como é triste
a solidão do leito, sem amigos, sem
familiares… Apenas as dores, a tristeza…
É tudo tão sombrio, tão
triste!
Diz
o semeador de luz:
– Vim lhe fazer companhia e dizer
que você não está só.
Busquemos juntos as claridades do Evangelho,
o consolo das lições de Jesus,
a luz da oração…
***
Alegria, onde haja tristeza.
No movimento espírita tivemos alguém
que não obstante a provação
que lhe impunha dolorosas limitações,
era um maravilhoso semeador de alegria:
Jerônimo
Mendonça.
Vítima
de grave problema de saúde, ficou
totalmente imobilizado, sem movimento num
só dedo dos pés ou das mãos,
e cego.
Viveu várias décadas assim.
Não obstante, nunca desanimou, nem
se entregou ao desalento.
Embora preso ao leito, mergulhado em escuridão,
jamais deixou de se comunicar com as pessoas.
Viajava, consolava, confortava, revelava
uma tamanha coragem, inspirado nos princípios
espíritas e nos ensinamentos de Jesus,
que muitas pessoas se converteram a partir
de seus exemplos.
Tinha dois dons maravilhosos:
•
Jamais se melindrava.
•
Ria das próprias limitações.
Enquanto
detinha a visão, nos primeiros tempos
da doença, ia ao cinema.
O leito ficava num dos corredores.
Certa feita, após o início
da sessão, entrou uma jovem.
Apressada, em plena escuridão tropeçou
na improvisada poltrona.
Irritada, bradou:
–
Diabo de aleijado! Se vou na praça
ele está lá! Vou a uma festa
e ele está lá! No campo de
futebol, está o aleijado! Até
no cinema esse enxerido me persegue!
E
Jerônimo:
–
Também, pudera! Você não
pára em casa!
Pessoas
que conviviam com Jerônimo concluíam:
O Espiritismo deve ser espantosamente
belo e estimulante, sustentando nesse homem
tão grande disposição
para enfrentar a adversidade com otimismo
e bom humor
É assim mesmo.
Quando nos dispomos a seguir firmes e confiantes
em Deus, não obstante dores e atribulações,
influenciamos irresistivelmente as pessoas
que nos rodeiam, tanto quanto os descrentes
e revoltados semeiam a descrença
e a revolta.
***
Os
que se doam incessantemente, amando e servindo
o semelhante, aprenderam com Francisco de
Assis que:
É
dando que recebemos.
Perdoando que somos perdoados.
E é morrendo que nascemos para a
Vida Eterna.
A afirmação final merece atenção.
É preciso “matar” o homem
velho, eivado de paixões, para que
nasça o homem novo a que se referia
o apóstolo Paulo.
Um ser especial que tem no Evangelho o seu
guia, o seu alento, a sua felicidade.
É assim que nasceremos para a vida
eterna, isto é, nos livraremos das
reencarnações expiatórias,
habilitando-nos aos planos mais altos do
infinito, onde há vida em
plenitude, sem acesso para a morte.
Livro
"O Destino em Suas Mãos"
Editora CEAC - Bauru
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