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Havia
restrições e comentários
desairosos sobre pessoas que Chico costumava
visitar.
– Não devia ir!
– É gente de má vida!
– Não fica bem!
Preocupado, o médium expôs
o assunto a Emmanuel:
– O senhor acha então que não
devo entrar lá?
– Pode, sim, Chico. Apenas desejo
saber como vai sair.
***
Há, nesse sugestivo, episódio
alguns aspectos que merecem nossa atenção.
O primeiro diz respeito ao velho problema
do preconceito, atavismo psicológico
que trazemos desde os tempos bíblicos,
em que o contato com as chamadas pessoas
de má vida era proibido, sob pena
de contaminação ou, pior,
de identificação.
Uma espécie de dize-me com quem andas
e te direi quem és, que pode ter
uma dose de verdade, mas passível
de inibir qualquer tentativa de ajudar alguém
cujo comportamento fuja aos bons costumes.
Um dos problemas de Jesus dizia respeito
às críticas dos fariseus,
sempre dispostos a encontrar chifre em cabeça
de cavalo, buscando comprometê-lo.
Certa feita, perguntaram aos seus discípulos
por que ele se relacionava com cobradores
de impostos e pecadores.
Ouvindo a conversa, o Mestre fez um comentário
antológico (Mateus, 9:12):
Os sãos não precisam de médico,
mas sim os doentes.
A chance dos maus superarem suas tendências
está justamente em não serem
discriminados pelos bons, dispostos estes
a lhes oferecer referencial adequado com
a força do exemplo.
***
Há a questão do julgamento,
a ser levada em consideração.
No Sermão da Montanha, Jesus proclama
que tendemos a enxergar ciscos em olhos
alheios e não observamos lascas de
madeira em nossos olhos.
Traduzindo: identificamos nos outros o que
existe amplamente em nós.
Outro detalhe: se, não obstante a
advertência de Jesus, resolvemos “apreciar”
o comportamento alheio, imperioso conhecer
todos os detalhes, a fim de não incorrermos
em injustiça.
O Espírito Hilário Silva,
em psicografia de Waldo Vieira, no livro
A Vida Escreve, narra ilustrativo episódio
ocorrido com diretor de Centro Espírita,
preocupado com um companheiro que fora visto,
várias vezes, entrando, no dizer
discreto do autor, numa casa suspeita, lugar
tristemente adornado para encontros clandestinos
de casais transviados.
Indo até o local, esperou que ele
saísse, por volta de meia-noite,
quando o admoestou severamente e, não
satisfeito em ouvir que estava ali em missão
de paz, procurando recuperar uma jovem inexperiente,
dispôs-se a confirmar a informação,
ignorando os apelos do companheiro, que
lhe implorava não o fizesse.
Enfatiza o autor:
E sem mais nem menos entrou casa a dentro,
encontrando, num pequeno salão, sua
própria filha chorando ao pé
de um cavalheiro desconhecido.
***
Há círculos religiosos que
revivem as restrições dogmáticas
do passado, enfatizando a necessidade de
evitar a “contaminação”.
Carnaval – nem pensar!
Festas mundanas – tentação!
Bar – casa do demônio!
Contato com os Espíritos –
perdição!
Estendem-se restrições variadas,
inibindo a iniciativa.
O Espiritismo, doutrina da consciência
livre, não impõe nada, partindo
do princípio de que a responsabilidade
é uma planta frágil que deve
crescer em clima de liberdade.
Podemos entrar onde nos aprouver.
O cuidado, como adverte Emmanuel, está
em saber como estaremos ao sair.
Livro
Rindo e Refletindo com Chico Xavier
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