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Clorinda,
Clô para os íntimos, preocupava-se
com Ricardo, seu enteado de 10 anos.
Menino de boa índole, não
fazia malcriações. Era quieto
e obediente.
O problema é que se recusava a pronunciar
seu nome.
Pior, amigo leitor! Jamais se dirigia a
ela diretamente!
Nem tu, nem você.
nem senhora !
O garoto evitava atender o telefone, porquanto
havia sempre a possibilidade de ser para
a madrasta. Complicado chamá-la sem
pronunciar seu nome, nem expressão
ou pronome de tratamento.
Nas raras oportunidades em que não
conseguia fugir, aproximava-se e dava um
jeito de postar-se diante dela, atraindo
sua atenção. Então
anunciava, afastando-se ligeiro:
– Telefone…
Se Clorinda estava conversando com alguém,
complicava. Era preciso esperar uma pausa
e que ela o fitasse.
Não raro, ela se fazia de desentendida,
só para ver sua reação.
Ricardo ficava extremamente aflito. Com
muito esforço vencia suas vacilações
e se colocava entre ela e o interlocutor.
Impossível não vê-lo.
Então, repetia:
– Telefone…
***
Embora
fosse uma mulher compreensiva e tolerante,
aquela situação começou
a exaspera-la.
Qualquer manual de relações
públicas recomenda que pronunciemos
o nome das pessoas, se pretendemos boa comunicação,
conquistando sua simpatia.
É o som mais agradável aos
nossos ouvidos.
Certamente o leitor já experimentou
a tortura de não lembrar o nome de
alguém que o cumprimenta, efusivo,
com a familiaridade de quem reencontra velho
amigo.
Você responde reticente.
Conhece-o, mas, desgraçadamente,
o nome está perdido em seus neurônios,
não obstante evoque todos os santos
em favor de providencial estalo na memória.
Pior quando o recém chegado percebe
seu constrangimento e cutuca:
– Já sei! Não está
me reconhecendo!…
Certamente você desejará que
o chão se abra debaixo de seus pés!
Imagine, portanto, como se sentia Clorinda
naquela insólita situação
– o enteado fugindo de pronunciar
seu nome como o diabo da cruz, não
por ignorância ou esquecimento, mas,
certamente, para aborrecê-la.
Ela comentava o problema com o marido. Francis
casara-se com ela em segundas núpcias.
Ricardo era filho do primeiro matrimônio.
O comportamento do menino era estranhíssimo.
Sem saber o que fazer, resolveram consultar
um psicólogo.
– É uma forma de hostilidade
– explicou o profissional. –
O menino não aceita que alguém
substitua sua mãe. Não pronunciando
seu nome é como se Clorinda não
existisse.
Recomendou que tivessem paciência,
sem solenizar a situação.
Com o tempo a rejeição seria
superada e tudo ficaria bem.
***
Meses
se passaram.
O prognóstico não se consumou.
Clorinda sentia-se extremamente desconfortável.
Não guardava raiva ou mágoa
de Ricardo.
Aborrecia-se por não conseguir ganhar
a sua confiança, favorecendo melhor
comunicação entre ambos.
Certa feita, numa reunião mediúnica,
teve oportunidade de conversar com um mentor
espiritual que a todos encantava com sua
simplicidade e sabedoria.
A jovem expôs o problema.
Gostava do menino. Queria aproximar-se dele,
mas sua hostilidade interpunha uma barreira
intransponível.
O mentor sorriu:
– Está equivocada, minha filha.
O menino não tem esse propósito.
É apenas acanhamento. Ao serem apresentados
ficou indeciso: como dirigir-se à
madrasta? Dona ou senhora lhe pareceu muito
formal; você ou Clorinda poderia ser
encarado como desrespeito. A dúvida
tomou conta dele. Atormentou-se muito. Sem
saber como agir, adotou a postura que a
incomoda. Ele também não se
sente bem, vítima da própria
timidez.
Clorinda suspirou.
– Meu Deus! Tão simples, e
a gente aqui procurando chifre em cabeça
de cavalo! Pobre Ricardo! Como deve esquentar
a cabeça por uma bobagem!
– Bobagem para o adulto. Para ele
um “bicho de sete cabeças”.
– E como devemos proceder?
– Defina para ele o que não
consegue fazer por sua própria iniciativa
– a forma de tratamento. Use de carinho
e o problema será facilmente superado.
No dia seguinte, logo que Francis deixou
o lar para o trabalho, Clorinda procurou
o menino.
– Ricardo, posso lhe fazer uma pergunta
boba?
– Claro.
– Como é meu nome?
O menino a fitou, vacilante.
Ela insistiu:
– Não sabe?
– Claro!… Sei, sim…
– Então diga!
– Clo…rin…da.
– Para você será apenas
Clô. É assim que a família
toda me chama. Tá bem? Simplesmente
Clô!
Ricardo sorriu, aliviado:
– Clô…
– Repita.
– Clô!
– Outra vez!
– Clô! Clô! Clô!
– dizia o menino, encantado.
A partir desse dia desapareceram os problemas
de comunicação.
Clô era o nome que Ricardo mais pronunciava,
aproximando-se da madrasta, em quem passou
a ver segunda mãe.
***
Erros, faltas, tolices e desentendimentos
estão presentes no relacionamento
social, exprimindo muito mais fragilidade
do que intenção maldosa.
É fácil entender.
Somos filhos de Deus, dotados de suas potencialidades
e virtudes.
Intrinsecamente, portanto, temos
a vocação para o bem.
Os desvios são próprios de
nossa imaturidade.
Isso acontece com grande freqüência
no relacionamento social, profissional e,
particularmente, familiar.
Quando nos compenetramos disso, fica mais
fácil perdoar as faltas alheias.
Melhor ainda, quando tomamos a iniciativa.
Às vezes, uma simples palavra é
suficiente para desfazer grandes equívocos,
favorecendo uma convivência fraterna.
O comentário edificante, o gesto
de carinho, o exercício da compreensão,
a disposição de ouvir, removem
todas as barreiras que impedem a comunicação.
Assim, ajudando as pessoas a vencer suas
limitações, estaremos contribuindo
para que prevaleça o Bem.
Não será difícil, se
guardarmos sempre a consciência de
algo muito importante, que o Espírito
Humberto de Campos, coloca nos lábios
de Jesus, no livro Boa Nova, psicografia
de Francisco Cândido Xavier:
O ser humano é mais frágil
do que perverso.
Livro
"O Destino em Suas Mãos"
Editora CEAC - Bauru
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