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Lucas,
4:16-30
O
termo sinagoga significa literalmente reunião.
Era o local onde se congregavam os judeus
para orar e estudar os textos sagrados –
o Torá, conhecido também
como a Lei, atribuído a Moisés,
composto pelos cinco primeiros livros do
Velho Testamento (Gênesis, Êxodo,
Levítico, Números e Deuteronômio)
e os Profetas.
Situavam-se, essencialmente, como centros
da vida social e cultural.
Funcionavam como biblioteca, escola, tribunal…
O edifício tinha forma retangular.
À entrada, uma grande porta central,
ladeada de duas menores. A assembléia
ficava voltada para a arca sagrada que guardava
os rolos do Torá e dos Profetas.
***
No salão havia, geralmente, três
fileiras de bancos.
Os homens ocupavam a parte do meio.
As mulheres ficavam nas laterais, separadas,
sem direito a participação.
Acontecia em todos os setores da vida judaica.
A mulher não passava de obscura serva.
Essa tendência caracterizou também
o Cristianismo.
O próprio apóstolo Paulo,
não obstante seu espírito
indômito, renovador, não se
furtou a esse comportamento preconceituoso,
tanto que na Primeira Epístola aos
Coríntios (14:34-35) proclama:
– Conservem-se as mulheres caladas
na igreja, porque não lhes é
permitido falar; mas estejam submissas como
também a lei o determina. Se, porém,
querem aprender alguma coisa, interroguem
a seus maridos, porque para a mulher é
vergonhoso falar na igreja.
Um
amigo gracejava dizendo que foi puro sadismo
de Paulo impedir que as nobres representantes
do sexo feminino exercitassem sua maior
vocação.
Perguntava:
– Haverá tortura maior
para uma mulher do que proibi-la de falar?
Talvez o apóstolo apenas quisesse
evitar que o tititi das laterais perturbasse
a reunião…
***
No fundo, sobre a plataforma, ficava a arca
onde se guardavam as escrituras sagradas.
À frente o púlpito. Nele os
textos escolhidos para a leitura do dia.
Utilizavam-se pergaminhos feitos com pele
de ovelha, cabra ou outro animal puro, não
carnívoro.
Cada livro do Torá ou dos Profetas
tinha seu próprio pergaminho.
Entre o armário santo e o púlpito
ficavam as cadeiras de honra, voltadas para
os fiéis, onde se sentavam os membros
mais importantes da comunidade.
Eram os disputados primeiros lugares.
Seriam motivo dos comentários de
Jesus, referindo-se à preocupação
de destaque que caracterizava muita gente.
O chefe da sinagoga, chamado presidente
ou príncipe, dirigia as reuniões.
O culto era celebrado pela manhã,
geralmente no dia consagrado ao Senhor,
o sábado.
Um dos presentes fazia a leitura. Seguiam-se
explicações e sermões
do presidente ou pessoa designada. Havia
também troca de idéias em
torno do tema abordado.
Era um sistema democrático. Visitantes
podiam fazer uso da palavra.
***
Jesus esteve várias vezes nas sinagogas,
dialogando com os dirigentes e a assembléia.
Nelas operou prodígios e curas.
Regressando da Samaria, foi à sinagoga
em Nazaré, cidade onde residira até
o início de seu apostolado.
Convidado a fazer a leitura, apresentaram-lhe
o livro de Isaías, um dos grandes
profetas judeus, que oito séculos
antes previra a vinda do Messias.
Jesus levantou-se, desenrolou o pergaminho,
e leu (Isaías 61:1-2):
–
O Espírito do Senhor está
sobre mim. Ungiu-me para anunciar boas novas
aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação
dos cativos, restauração da
vista aos cegos e para por em liberdade
os oprimidos e proclamar o ano aceitável
do Senhor.
Foi um dos momentos mais marcantes da história
cristã.
Dera-se, finalmente, o encontro da anunciação
com o anunciado.
O mensageiro revelava-se.
A profecia sobre o Messias era lida pelo
próprio Messias.
***
Se ficarmos na apreciação
literal, as predições de Isaías
não fazem sentido.
Jesus não libertou nenhum preso…
Não se limitou a curar cegos…
Não livrou o povo judeu do jugo romano…
Para entender o profeta é preciso
atentar ao sentido simbólico de sua
proclamação.
A pior prisão não
tem grades.
Está em nosso íntimo, quando
perdemos o rumo da existência, sob
a tutela de carcereiros terríveis:
•
a depressão, que inibe a vontade
de viver…
• o ódio, que aniquila a paz…
• a dúvida, que destrói
a crença…
• a revolta que mata a esperança…
Jesus
nos ajuda a arrombar suas portas com a dinâmica
do Evangelho, anulando:
•
a depressão, com o esforço
do bem…
• o ódio, com a força
do perdão…
• a dúvida, com os valores
da fé…
• a revolta, com a bênção
da aceitação…
A pior cegueira é da alma.
Não vemos por onde andamos e entramos
por desvios perigosos de ilusão,
perseguindo realizações efêmeras
do homem perecível, sem considerar
as necessidades do Espírito eterno.
Jesus abre nossos olhos.
Com ele aprendemos que a existência
humana é uma jornada para Deus.
Para seguirmos com segurança faz-se
indispensável iluminar os caminhos
com os valores do Bem e da Verdade, admiravelmente
sintetizados nas lições evangélicas.
A pior tirania é a compulsão.
Algo que nos domina, que nos oprime…
Todo viciado tende a ser um compulsivo,
envolvendo-se num comportamento comprometedor.
Não vacila em burlar os regulamentos.
Coloca em risco a saúde e a segurança
de outras pessoas para satisfazer-se.
Impedidos de acender seus cigarros nas viagens
aéreas, fumistas procuram os sanitários,
onde também é proibido. Não
raro danificam os censores de fumaça
para não serem descobertos. Um incêndio
somente será detectado quando se
alastrar irremediavelmente.
Algo pior ocorre com drogas como e heroína
e a cocaína. Assaltantes que chocam
a opinião pública pelos requintes
de crueldade, não vacilam em matar
para conseguir o dinheiro necessário
à sustentação do vício.
E há os chamados vícios morais,
como a maledicência, a mentira, o
palavrão, a luxuria, a pornografia,
compulsões que produzem estragos
no psiquismo humano.
Esses desvios não serão vencidos
enquanto não nos dispusermos a aplicar
o Evangelho, nossa carta de alforria espiritual,
cultivando a palavra justa, o pensamento
puro, a ação disciplinada.
***
Após a leitura, Jesus anunciou:
–
Cumpriram-se hoje as afirmativas destas
escrituras.
A reação da assembléia
foi de espanto. E diziam, entre si.
–
Mas não é esse o filho de
José… – como se
fosse impossível o filho de um carpinteiro
fazer aquela proclamação.
Jesus lhes respondeu:
–
Sem dúvida, me recordareis este provérbio:
“Médico, cura-te a ti mesmo.
Faze na tua terra as grandes obras que,
segundo ouvimos falar, fizeste em outros
lugares”. Mas, em verdade, vos afirmo
que nenhum profeta é aceito na sua
Terra. Em verdade vos digo que muitas viúvas
havia em Israel, ao tempo de Elias, quando
o Céu se fechou durante três
anos e seis meses e grande fome assolou
toda a Terra; entretanto, Elias não
foi enviado a nenhuma delas, mas a uma que
era viúva em Sarepta de Sídon.
Havia, também, muitos leprosos em
Israel, ao tempo do profeta Eliseu, e, no
entanto, nenhum ficou limpo senão
Naamã, que era da Síria.
A
estranheza dos habitantes de Nazaré
foi bem humana.
Difícil aceitar uma posição
de destaque para alguém com quem
convivemos, que conhecemos desde as limitações
da infância, cujas virtudes ignorávamos.
Pode ferir o nosso ego.
A
inveja sempre se aborrece com o sucesso
dos que lhe são próximos.
Por
isso Jesus proclamou que nenhum profeta
opera prodígios em sua terra. E citou
dois exemplos, contidos nas escrituras,
em que uma viúva e um leproso, que
não eram judeus, foram beneficiados
por Elias e Eliseu.
A viúva era de Sarepta, uma pequena
cidade nas proximidades de Sídon
(hoje no Líbano). Segundo o relato
no livro Reis (17:8-24), a região
passava por grande seca. Elias foi inspirado
por Jeová a procurá-la. Não
era judia. No entanto foi beneficiada com
dois prodígios. Primeiro uma panela
mágica onde nunca faltava alimento;
depois a cura de seu filho, dado como morto.
O leproso era Naamã, chefe do exército
da Síria, como está em 2 Reis
(5:1-14). Eliseu lhe recomendou que mergulhasse
sete vezes nas águas do Jordão.
Naamã cumpriu a orientação
e curou-se. Cheio de júbilo quis
recompensar seu benfeitor, que se recusou
terminantemente a receber qualquer presente.
Eliseu era a figura típica do profeta
de sua época, austero, inflexível,
mas temperamental, capaz de inacreditáveis
sanções como a que imporia
a Geazi, seu discípulo.
Geazi acompanhou Naamã.
Bem à moda do falso religioso, inventou
uma história de suposto benefício
a filhos da região e recebeu talentos
de prata, que guardou para si.
Ao ter conhecimento do que acontecera Eliseu
amaldiçoou Geazi, dizendo-lhe que
a lepra de Naamã o atingiria, bem
como à sua descendência, para
sempre.
O episódio termina com Geazi retirando-se,
já leproso.
Faltava compreensão aos profetas
de Israel, sempre dispostos a evocar a ira
divina sobre aqueles que não observavam
sua orientação.
Jesus ensinava diferente. Revelava um deus
compassivo, um pai generoso, não
um intransigente vingador.
Importante ressaltar que ao citar Isaias,
na leitura da sinagoga, Jesus leu apenas
parte do versículo dois:
…a
apregoar o ano aceitável do Senhor…
Omitiu
a seqüência:
…
e o dia da vingança de nosso Deus…
Não
obstante seus elevados dotes espirituais
Isaias também não conseguiu
superar as limitações de seu
tempo e as tendências belicosas do
povo judeu.
A vingança é sempre um ato
de insanidade, não raro estúpido,
absurdo, como fez Eliseu com seu discípulo.
***
A
franqueza de Jesus chocou seus conterrâneos
que, segundo a narrativa do evangelista
Lucas, o expulsaram da cidade. Cogitaram
até de atirá-lo num abismo.
Mas não era chegado o tempo de sacrifício.
A mensagem do Reino ainda não fora
anunciada.
Por isso, nada puderam fazer contra ele.
Jesus continuou a anunciar o ano aceitável
do Senhor, o tempo abençoado em que
se iniciava a pregação do
Reino.
Individualmente, todos haveremos de ter
um ano sagrado.
O
grande ano, o ano aceitável de nossa
existência como Espíritos imortais,
será aquele em que aderirmos às
diretrizes de Jesus, dispondo-nos à
vivência plena do Evangelho!
Livro
"Levanta-te!"
Editora CEAC - Bauru
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