| Diógenes
(400-325 a.C.), filósofo grego, era
famoso por seu comportamento excêntrico
e comentários mordazes.
Dizia-se que tinha grande desprezo pela
Humanidade.
Caminhava pelas ruas de Atenas com uma lanterna,
a proclamar:
–
Procuro um homem honesto.
Era algo para ele tão difícil
quanto iluminar um palheiro em busca de
agulha perdida.
Observação bem atual, ante
a desavergonhada corrupção
que se institucionaliza na sociedade humana.
***
Diógenes não era nenhum misantropo
ranheta e excêntrico.
Havia em suas atitudes um humor irônico,
que popularmente chamaríamos hoje
de gozação, com o qual procurava
instigar as pessoas à apreciação
de suas idéias.
Ensinava que o supremo recurso de felicidade
é o total desprezo pelas convenções
humanas, em obediência plena às
leis da Natureza.
O caminho para essa realização
está na simplificação
da existência, superando a superficialidade
e os modismos.
Andava descalço…
Vestia uma única túnica…
Dormia num tonel…
Certa feita, viu um menino a usar o côncavo
das mãos para tomar água.
Admirou-se:
–
Acabo de aprender que ainda tenho objetos
supérfluos.
Jogou fora a caneca que usava e passou a
imitar o menino.
***
Alexandre,
o Grande (356-323 a.C.), quis conhece-lo
e testar seu proverbial desprendimento dos
bens materiais.
Foi encontrar o filósofo, em fria
manhã de inverno, aquecendo-se ao
sol.
Após serem apresentados e conversarem,
Alexandre disse-lhe estar disposto a atender
qualquer pedido seu.
O capricho mais sofisticado, o objeto mais
precioso…
Diógenes sorriu e respondeu:
–
Quero apenas que não me tires o que
não me podes dar. Estás diante
do Sol que me aquece. Afasta-te, pois...
***
Certamente seria complicado tomar Diógenes
ao pé da letra.
Acabaríamos internados num hospício.
Os tempos são outros.
Além do mais, estamos longe do desprendimento
total.
Não obstante, seria interessante
observar a tônica de suas idéias:
Simplicidade.
É
preciso que nos libertemos de condicionamentos
e modismos, do supérfluo e do artificial,
contentando-nos com o necessário
à vida.
Teremos, então, melhores chances
de viver bem.
Jesus deixa isso bem claro no Sermão
da Montanha, quando recomenda que não
nos preocupemos demasiadamente com nossa
vida, nem acerca do que devemos comer ou
vestir…
É preciso centralizar nossas ações
em torno do Reino de Deus, que se realiza
no empenho do Bem.
Tudo o mais, explica Jesus, virá
por acréscimo.
A Doutrina Espírita oferece marcante
contribuição em favor da simplificação
de nossa existência, abrindo-nos as
portas do mundo espiritual para nos mostrar
algo que não devemos esquecer jamais:
Levaremos
para o Além somente os valores incorporados
à nossa alma, nos domínios
da virtude e do conhecimento.
O
resto ficará por aqui mesmo.
Imperioso, pois, simplificar sempre, como
destaca Guilherme de Almeida (1890-1969):
Simplicidade…
Simplicidade…
Ser como as rosas, o céu sem fim,
a árvore, o rio… Por que não
há de
ser toda gente também assim?
Ser
como as rosas: bocas vermelhas
que não disseram nunca a ninguém
que tem perfumes… mas as abelhas
e os homens sabem o que elas têm!
Ser
como o espaço, que é azul
de longe,
de perto é nada… Mas quem o
vê
– árvores, aves, olhos de monge…
–
busca-o sem mesmo saber porque.
Ser
como o rio cheio de graça,
que move o moinho, dá vida ao lar,
fecunda as terras… E, rindo passa,
despretensioso, sempre a cantar.
Ou
ser como a árvore: aos lavradores
dá lenha e fruto, dá sombra
e paz;
da ninho às aves, ao inseto, flores…
Mas nada sabe do bem que faz.
Felicidade
– sonho sombrio!
Feliz é o simples que sabe ser
como o ar, as rosas, a árvores, o
rio:
simples, mas simples sem o saber!
Do livro Luzes no Caminho
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