Que é Deus?
Deus é a inteligência suprema,
causa primária de todas as coisas.
Questão nº 1
Pitágoras, que viveu no século
VI a.C., foi um dos mais lúcidos
Espíritos da antiga Grécia.
Chamado sábio pelos discípulos,
respondia que era apenas um philosophos.
Em grego, philos, amigo; sophoi, sabedoria.
O filósofo é um amigo do
saber.
***
Para Platão, outro grande sábio
grego, a filosofia deve ser exercitada
não por mero prazer especulativo,
mas como uma necessidade básica
do ser humano, em busca da Verdade.
Quem sabe de onde veio situa-se melhor.
Quem sabe por onde anda não se
perde nos caminhos.
Quem sabe para onde vai não experimenta
perplexidade e desalento.
Ele valorizava extremamente esse empenho.
Destacava que a direção
das coletividades deve pertencer aos filósofos.
Afirmava:
A não ser que os filósofos
se tornem governantes ou que os governantes
se tornem filósofos, não
haverá solução para
as aflições humanas.
O grande problema é que raramente
essas orientações têm
sido observadas.
Os filósofos procuram o saber não
por amor à sabedoria, como Pitágoras,
nem por amor à Verdade, como Platão.
Apaixonados por si mesmos, pretendem decifrar
os enigmas do Universo a partir de uma
exaltação da própria
vaidade.
Quase sempre cometem um erro fundamental:
Ignoram a presença de Deus no Universo,
pretendendo explicar a criação
sem um Criador.
Diz Jesus, em Mateus, 11:25:
Graças te dou, ó Pai do
Céu e da Terra, porque ocultaste
estas cousas aos sábios e entendidos,
e as revelaste aos pequeninos.
A chave da percepção,
que nos coloca em contato com as realidades
universais, é a humildade, o reconhecimento
da própria pequenez diante do Senhor
Supremo, em cujo seio existimos e nos
movemos, conforme observa o apóstolo
Paulo.
***
Não menos importante é
exercitarmos a razão para apreciar
a Regência Divina.
Sem esse empenho incorreremos no milenar
engano: conceber um deus antropomórfico,
feito à nossa imagem e semelhança,
governando a vida universal sob inspiração
de paixões típicas da inferioridade
humana.
Jeová, o todo poderoso senhor bíblico,
vingava-se até a quarta geração
daqueles que o ofendiam e determinava
que os judeus passassem a fio de espada,
em terra inimiga, tudo o que tivesse fôlego!
Mais exatamente, todos os viventes, fossem
homens, mulheres, velhos, crianças,
aves, peixes, animais...
O deus cristão não tem feito
melhor. Basta lembrar que em seu nome
sustentaram-se as cruzadas, as fogueiras
inquisitoriais, o comércio das
indulgências, a monarquia religiosa,
a caça às bruxas...
Se falta religiosidade aos pensadores,
carecem de racionalidade os religiosos.
***
Homem culto e sensível, professor
por profissão, filósofo
por vocação, Allan Kardec
sempre se preocupou com os problemas humanos,
buscando, sobretudo, um sentido para a
vida.
Ao entrar em contato com os Espíritos,
nas primeiras reuniões a que compareceu
em Paris, no ano de 1855, teve a necessária
humildade para enxergar o que enfatuados
acadêmicos recusavam ver: a presença
de homens desencarnados ou as almas dos
mortos, dando notícias do continente
espiritual, o que abria um promissor campo
de pesquisas.
Mas em momento algum renunciou à
lógica e ao bom senso, como enfatiza
em O Evangelho Segundo o Espiritismo:
Fé inabalável só
é a que pode encarar de frente
a razão, em todas as épocas
da Humanidade.
Em Obras Póstumas, destaca, referindo-se
à sua iniciação:
Compreendi, antes de tudo, a gravidade
da exploração que ia empreender,
percebi, naqueles fenômenos, a chave
do problema tão obscuro e tão
controvertido do passado e do futuro da
Humanidade, a solução que
eu procurara em toda a minha vida. Era,
em suma, toda uma revolução
nas idéias e nas crenças;
fazia-se mister, portanto, andar com a
maior circunspecção e não
levianamente; ser positivista e não
idealista, para não me deixar iludir.
***
Outro grande mérito de Kardec
foi começar seu trabalho de codificação
da Doutrina Espírita a partir da
idéia fundamental - Deus, não
indo além do que lhe seria dado
compreender, com o que evitou especulações
fantasiosas.
A primeira pergunta que formulou, ao reconhecer
que estava em contato com elevadas Entidades
que se propunham a transcendentes revelações,
evidencia sua sobriedade e discernimento:
Que é Deus?
Normalmente se perguntaria: Quem é
Deus?
Soa melhor.
No entanto, qualquer estudante secundário
sabe que há uma diferença
fundamental entre os pronomes que e quem.
Quem é Jesus?
Um judeu nascido em Belém, filho
do carpinteiro José e sua esposa
Maria. Viveu em Nazaré. Morreu
crucificado em Jerusalém.
Que é Jesus?
O autor dos ensinamentos que deram origem
ao Cristianismo, um movimento religioso
que, em vários segmentos, constitui
hoje a crença predominante no Ocidente.
O pronome quem implica em identificação.
O pronome que define atividade, condição,
qualificação.
Por isso Kardec, sabiamente, não
pergunta quem é Deus. Como identificá-lo?
Onde nasceu? Qual sua origem, idade, natureza
íntima?
Não estamos diante de mistérios
no sentido teológico - assuntos
proibidos. São apenas informações
que escapam ao nosso entendimento no atual
estágio evolutivo.
Seria o mesmo que ensinar álgebra
a um recém-nascido.
Assim, limitou-se a perguntar quanto à
qualificação de Deus e não
quanto à identificação.
Ao responder que Deus é a inteligência
suprema, causa primária de todas
as coisas, os mentores espirituais esgotaram
o assunto, nos limites do entendimento
humano.
A partir dessa idéia fundamental
Kardec desenvolveria as 1.018 questões
que compõem O Livro dos Espíritos.
Nele temos um roteiro indispensável
em favor de nossa felicidade e bem-estar,
inspirando-nos amor ao conhecimento, como
exaltava Pitágoras, mas, sobretudo,
levando-nos ao conhecimento do Amor, síntese
das Leis Divinas, como ensinava Jesus.
Livro A Presença de Deus