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Idoso
confrade, espírita da velha guarda,
homem simples, sincero e extraordinariamente
comunicativo, percorria as dependências
de um presídio onde deveria proferir
palestra.
Ao passar pela biblioteca, notou um preso
absorto na leitura, em recanto discreto.
Impressionou-o a expressão abatida
e triste do reeducando. Obedecendo a um
impulso, aproximou-se e, num gesto muito
seu, abraçou-o efusivamente, dizendo-lhe:
– Olá, irmão! Lendo
um pouco? Os bons livros oferecem luz para
o Espírito e conforto para o coração!…
E por aí foi, numa torrente de observações
carinhosas que fluíam naturalmente
de seus lábios, extravasando fraternidade
pura.
O preso recebeu taciturno tão efusiva
manifestação de alguém
que jamais vira, mas rendeu-se à
sua simpatia e acabou por acompanhá-lo
ao recinto de reuniões.
O tema da noite foi o suicídio. Inspirado,
o visitante apresentou-o por porta falsa
pela qual aquele que pretende libertar-se
do sofrimento se precipita em dores mil
vezes acentuadas. Servindo-se de numerosos
exemplos demonstrou que desertar da existência
é adiar compromissos intransferíveis
e que, após dolorosas experiências
no plano espiritual, o suicida enfrentará,
em regime de complexidade capitalizada,
as mesmas situações de que
fugira.
Ao término da reunião, o preso,
que tudo ouvira com grande interesse, aproximou-se
do conferencista e confessou:
– O senhor salvou-me a vida esta noite…
Quando entrou na biblioteca, eu apenas fingia
ler… Meus olhos estavam pousados no
livro, mas meu pensamento era um vulcão.
Mágoas e inquietações
que há meses me torturavam o cérebro
haviam atingido um ponto de saturação.
A idéia do suicídio pareceu-me
a solução ideal. Suas palavras,
entretanto, abriram meus olhos para a loucura
que eu ia cometer. Sua visita foi providencial.
Jamais esquecerei seu abraço fraterno
na biblioteca e tenho certeza de que foi
Deus quem o inspirou. Muito obrigado! Prometo-lhe
que nunca mais pensarei em cometer tamanha
loucura.
Nota-se claramente neste episódio
a ação do Plano Espiritual
montando um dispositivo de socorro a alguém
preste a mergulhar no precipício
do suicídio.
O auto-aniquilamento, desastre de conseqüências
imprevisíveis para o que não
respeitam o compromisso da existência,
provoca intensa mobilização
de benfeitores invisíveis que, com
todos os meios ao seu alcance, lutam para
evitar a consumação do lamentável
gesto de rebeldia.
Impossibilitados de uma ação
direta, em face do turbilhonamento mental
do socorrido, articulam a visita do conferencista,
promovem o encontro na biblioteca e inspiram
o visitante à escolha do tema.
Raros, entretanto, os que se dispõem
a estender antenas espirituais para captar
os apelos do Alto. É fácil
imaginar o drama dos Espíritos, procurando
neste mundo de interesses imediatistas,
sob domínio das sensações,
alguém capaz de cultivar a reflexão
e de ceder ao impulso da Fraternidade.
Um sorriso amigo, uma palavra gentil, um
gesto de camaradagem, operam prodígios
num coração atribulado.
Cada suicida que deixa a Terra, frustrando
os esforços da Espiritualidade, é
alguém que complica o futuro por
fugir do presente, mas é também
um atestado eloqüente da indiferença
quer caracteriza o homem comum, de sensibilidade
atrofiada para os apelos da Vida Maior,
incapaz de perceber a angústia de
seu irmão…
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