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1
– Com a morte de Chico Xavier recrudesceu
no meio espírita a idéia de
que o grande médium de Uberaba seria
a reencarnação de Allan Kardec.
O que lhe parece?
A Terra é a morada da opinião,
principalmente quando se fala em reencarnação.
É quase um jogo de adivinhação,
no movimento espírita, a identificação
de gente do passado na pele de gente do
presente. Como Chico é a personalidade
espírita mais ilustre de nosso tempo,
natural que se tenda a associá-lo
a algum vulto do Espiritismo. Antes que
essa idéia tomasse corpo, falava-se
que Chico teria sido uma das médiuns
que colaboraram na Codificação.
2
– Essa associação Kardec/Chico
pode trazer algum problema para o movimento
espírita?
Não, enquanto estiver nos domínios
da especulação pessoal, até
porque temos direito à imaginação.
Haverá problemas se acontecer uma
solenização, formando-se grupos
pró e contra, empenhados em proselitismo,
a gerar dissensão, com aquela lamentável
tendência de menosprezo às
convicções alheias, a situar
por ingênuos e ignorantes os que defendem
idéias diferentes das nossas.
3
– Em que a Doutrina Espírita
pode ser beneficiada com o reconhecimento
dessa identidade entre ambos?
Doutrinariamente, não acrescentaria
um til aos princípios espíritas.
Haveria apenas o cumprimento de uma previsão
do próprio Kardec, de que reencarnaria
no começo do século, com base
numa informação da espiritualidade,
segundo a qual deveria complementar seu
trabalho em nova existência. Está
numa manifestação publicada
no livro “Obras Póstumas”.
4
– Isso não é suficiente
para estabelecer a conexão entre
Kardec e Chico?
Para que isso acontecesse a informação
deveria passar pelo critério da universalidade,
defendido pelo próprio Kardec. Vários
Espíritos, através de vários
médiuns deveriam confirmá-la,
o que não aconteceu.
5
– Não é ponderável
o argumento de que Chico completou a obra
de Kardec?
Quanto ao aspecto filosófico e nas
conseqüências religiosas, a Doutrina
está inteira nas duas obras básicas,
O Livro dos Espíritos e O Evangelho
segundo o Espiritismo. No aspecto científico
tenderá a desenvolver-se sempre,
acompanhando a ciência humana, como
o próprio Kardec sugeria. Entendo
que Chico não completou o trabalho
de Kardec. Apenas o desdobrou, ampliando
o que está em síntese na Codificação.
6
– Você admite que Chico possa
ser a reencarnação de Kardec?
Ninguém, além de Chico, mereceria
estar nessa posição, pela
grandiosidade de sua obra. Entretanto, tenho
dificuldade para aceitar, porquanto ambos
são bem diferentes. O Espírito
não muda tanto, em tempo tão
breve, no contexto reencarnatório.
Psicologicamente Chico está muito
mais perto de um Francisco de Assis. Obviamente,
não estou pretendendo que seja a
reencarnação do santo. É
apenas uma comparação.
7
– Como poderemos ter uma certeza a
respeito do assunto? Costuma-se
dizer que o tempo é o senhor da verdade.
Individualmente, saberemos quando tivermos
acesso à historiografia espírita,
após o nosso retorno à vida
espiritual. Coletivamente, na Terra, passados
alguns decênios e superadas as apreciações
emocionais, haverá suficiente isenção
para favorecer uma visão mais realista,
a fim de que a verdade apareça.
8
– Até lá, qual deve
ser nossa postura?
De absoluta tranqüilidade quanto ao
assunto, sem nos envolvermos em polêmicas
estéreis. Há assuntos mais
urgentes e importantes a tratar, como a
própria divulgação
dos princípios espíritas,
em que Chico foi campeão. Somos todos
convocados a esse mister, com o exemplo
de uma ação consciente e disciplinada,
voltada para o Bem.
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