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1
– Na célebre passagem evangélica,
Jesus expulsou os comerciantes do Templo,
citando Isaías (56:7): “minha
casa será chamada casa de oração;
vós, porém, a fazeis covil
de ladrões” , em clara condenação
à sua atividade. Isso não
se aplica ao Centro Espírita, envolvendo
venda de livros, bazares, lanchonetes…?
Negativo. Consideremos, preliminarmente,
que essa passagem evangélica é
discutível. Jesus jamais usaria de
violência, como está situado
em João (2:15): “tendo feito
um chicote de cordas, lançou a todos
fora do Templo, bem como os bois e as ovelhas;
espalhou o dinheiro dos cambistas, derrubou
as mesas”. Seria inconcebível
num missionário divino, que veio
ensinar valores como a mansuetude, a compreensão
e o respeito pelo próximo, além
de constituir indébita interferência
no culto local.
2
– E quanto à sua observação,
citando Isaías?
Parece-me uma habilidosa interpolação
dos teólogos medievais, com clara
intenção anti-semita. Jesus
sabia perfeitamente que a “casa do
Pai” transcende as acanhadas dimensões
de uma construção de pedra,
abrangendo todo o Universo. E não
haveria porque falar em covil de ladrões,
já que aquele comércio estava
inserido no culto.
03
– Fazia parte?
Atendia às suas necessidades. Nas
datas comemorativas, Jerusalém regurgitava
de judeus que moravam em outras localidades
ou no exterior. Vinham cumprir seus deveres
religiosos. Nas doações ao
Templo não podiam ser usadas moedas
gregas e romanas, em circulação.
Era preciso fazer a conversão para
o siclos judeus. Daí as bancas (origem
do nome Banco), para o câmbio necessário.
Por outro lado, animais e aves, bem como
incenso, óleo e outros produtos usados
eram ali adquiridos. Poderia ocorrer algum
exagero nos preços, típico
da natureza humana, mas, essencialmente,
atendia-se às conveniências
dos peregrinos.
4
– Não poderíamos situar
aquela prática como a comercialização
do sagrado?
Talvez existisse do lado de dentro, envolvendo
a cobrança por orações,
rituais de purificação e outras
cerimônias. Não guardava nenhuma
relação com os comerciantes
do lado de fora, contra os quais teria se
insurgido Jesus. Infelizmente, a simonia,
o comércio do sagrado, tem caracterizado
o culto religioso ao longo dos séculos.
5
– E quanto ao Centro Espírita?
Para uma apreciação devida
do assunto, consideremos sua tríplice
função: hospital, num primeiro
momento, quando o buscamos para a cura de
males físicos e espirituais; escola,
quando conscientes da necessidade de ampliar
conhecimentos sobre a existência humana;
oficina, onde somos chamados a trabalhar
em favor do próximo, a exercitar
o altruísmo, quando conscientes de
nossas responsabilidades como Espíritos
imortais. À semelhança do
que acontecia com o templo judaico, a venda
de livros favorece a divulgação
da doutrina, a lanchonete favorece o freqüentador,
principalmente em cidades grandes, onde
é comum ir do trabalho direto para
o Centro; o rendimento do bazar favorece
o trabalho assistencial. Essas práticas,
portanto, vinculam-se às funções
do Centro como hospital, escola e oficina.
6
– E onde fica o templo?
Em nossa alma. É onde devemos buscar
Deus para a conquista de valores espirituais
com os quais possamos beneficiar o próximo,
envolvendo a atividade mediúnica,
o passe magnético, a oração,
o atendimento fraterno… Lembremos
a expressão de Jesus, diante da mulher
samaritana: Dia virá em que Deus
não será adorado no Templo,
em Jerusalém, nem no monte, na Samaria,
porque o Pai é espírito e
em espírito deve ser adorado.
7
– Sem comércio…
Obviamente. Valores espirituais não
podem ser comercializados, conforme lembrava
Jesus: dar de graça o que de graça
recebemos, envolvendo o passe, o exercício
mediúnico, as curas espirituais,
os serviços de desobsessão…
8
– E como agir diante de dirigentes
espíritas que não permitem
a instalação de livraria,
bazar, lanchonete, etc.? Condenam
o Centro à estagnação
e inibem a ação de voluntários
que poderiam dinamizar a instituição,
promovendo o seu crescimento e ampliando
o potencial de benefícios que a casa
espírita pode e deve prestar aos
carentes de todos os matizes.
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