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1
– Os trágicos acidentes ocorridos
com dois aviões no Brasil, matando
centenas de pessoas, suscitam a velha questão:
foi fatalidade, o maktub da filosofia oriental?
Para adotar semelhante concepção,
forçoso admitir que Deus derrubou
os aviões, o que não exprime
a realidade. Acidentes dessa natureza sempre
envolvem falhas humanas.
2
– As próprias falhas humanas
não podem obedecer à fatalidade?
E onde ficaria o livre-arbítrio?
Seríamos marionetes de Deus, cometendo
erros para que o Senhor cumpra seus desígnios?
Deus nos dá a vida. A qualidade e
duração da vida dependem,
na maior parte das vezes, de nossas ações
ou omissões. Há muito fala-se
que aviões de grande porte não
podem descer num aeroporto de pista curta
como Congonhas. Se fosse maior aquelas mortes
teriam sido evitadas. Podemos ir além.
Por que acidentes assim não ocorrem
nos Estados Unidos? Por que as estatísticas
demonstram que é bem menos perigoso
viajar de avião naquele país
do que no Brasil? Será porque Deus,
que dizem ser brasileiro, está nos
abandonando? Ou será porque as coisas
funcionam de forma mais disciplinada por
lá?
3
– E a fatalidade da morte? Não
existe uma hora certa para morrer? Aquelas
pessoas não estavam cumprindo um
destino?
A morte é, sem dúvida, uma
fatalidade. Todos morreremos um dia, mas
não há dia e hora marcados
para ela nos levar. A programação
biológica da existência humana
é de 80 a 100 anos. Poderemos chegar
lá ou morrer antes, em face das próprias
contingências da Terra, onde existe
um bicho chamado homem que ainda não
aprendeu a usar o livre- arbítrio
de forma adequada, respeitando a integridade
própria e a do semelhante.
4
– O que são essas contingências?
O que possa acontecer, não como manifestação
da vontade de Deus, mas decorrente das ações
humanas. Um jovem ensandecido matou 32 pessoas
numa universidade americana. Diariamente,
no Iraque, homens fantasiados de bombas
matam uma média de 12 pessoas; milhares
de pessoas morrem vitimadas por conflitos
raciais, políticos, sociais, militares,
mundo afora. Teria chegado a hora dessas
pessoas? Evidentemente, não! Em caso
afirmativo os autores das mortes estariam
justificados. Seriam instrumentos de Deus.
5
– Assim considerando, como interpretar
a afirmativa de Jesus, de que não
cai um pássaro do céu, sem
que seja pela vontade de Deus.
Conveniente interpretar essa “vontade”
como “consentimento”. Caso contrário
estaremos admitindo que os americanos mataram
duzentos mil japoneses com duas bombas atômicas,
em Hiroshima e Nagasaki, cumprindo desígnios
divinos.
6
– Fica complicado saber que corremos
o risco de morrer não porque tenha
chegado nossa hora, mas por ação
de outrem...
Viver é um risco. Posso sair na porta
de minha casa e ser assaltado por ladrão
que, afoitamente, me dê um tiro, remetendo-me
para o Além, sem que tenha chegado
minha hora. Por isso Jesus recomendava que
devemos ser mansos como as pombas, não
fazendo nada que leve prejuízo ao
semelhante, e prudentes como as serpentes,
evitando ser prejudicados por ele. Não
obstante, em situações dessa
natureza é oportuno lembrar que a
morte, que tanto nos oprime e apavora, é
apenas a passagem de retorno ao Mundo Espiritual,
onde está a vida em plenitude. O
problema não está em quando
e como morrer, mas em estarmos preparados
para partir, cultivando uma existência
disciplinada pelos valores do Bem e da Verdade.
7
– Fala-se que pessoas que morrem num
acidente foram ali reunidas para resgatarem
débitos cármicos envolvendo
crimes cometidos no pretérito.
Fico pensando na logística de uma
incrível operação dessa
natureza, desenvolvida pelos poderes espirituais
que nos governam, destinada a reunir centenas
de pessoas em duas aeronaves e depois providenciar
para que ocorra um acidente, que deveríamos
tomar à conta de uma execução
divina. E quanto aos japoneses, em Hiroshima
e Nagasaki? Tinham débitos semelhantes
que justificavam serem desintegrados em
explosões atômicas? E reencarnaram
todos por lá e foram reunidos no
dia aprazado, na hora certa para o holocausto
nuclear? E teriam os americanos recebido
“divina inspiração”
para tanto?
8
– Não determina a lei de causa
e efeito, o carma da filosofia hindu, que
recebamos de volta o mal praticado?
Sim, e é assim que aprendemos a disciplinar
nossas ações, mas não
podemos raciocinar em termos do olho por
olho, dente por dente, de Moisés,
sem espaço para a misericórdia
ensinada por Jesus e presente hoje nas legislações
humanas mais avançadas, que começam
a enxergar no criminoso um doente que deve
ser tratado, não eliminado. E é
sempre bom lembrar, com o apóstolo
Pedro, em sua primeira epístola,
que o amor cobre a multidão dos pecados.
Se ontem esmurrei um adversário,
exprimindo agressividade, posso amenizar
minha culpa estendendo, hoje, minha mão
aos carentes, exercitando solidariedade,
sem necessidade de sofrer um nocaute para
pagamento do débito contraído.
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