|
1
– A mídia vem destacando a
publicação de um “Evangelho
segundo Judas”. Ele escreveu um Evangelho?
Segundo os exegetas, nem ele nem os demais
evangelistas. Os textos evangélicos
podem envolver o pensamento de quem lhes
deu nome, mas foram consolidados mediante
a contribuição de vários
autores. Provavelmente Judas tinha uma comunidade
que simpatizava com ele e que desenvolveu
idéias próprias a respeito
de sua participação no Drama
do Calvário.
2
– Por que só agora foi dado
à publicidade esse texto?
Havia referências na tradição
cristã, mas ele estava perdido, já
que foi considerado apócrifo e herético
pelas autoridades religiosas, eliminando-se
os exemplares existentes. Escapou um que
foi descoberto numa caverna no Egito, em
1970, escrito em copta, com 26 folhas em
papiro, usadas dos dois lados.
3
– Por que só agora foi publicado?
É que o texto passou por várias
mãos, no mercado das relíquias,
até ir parar na Fundação
Mecenas, na Suíça, onde foi
restaurado e traduzido, em exaustivo trabalho
que demandou vários anos, sob o patrocínio
da National Geographic Society. O Evangelho
segundo Judas é parte do documento,
que inclui, ainda, o Primeiro Apocalipse
de Tiago, uma carta de Pedro a Felipe e
um fragmento do Livro dos Alógenes.
4
– Documento antigo?
Conforme exame feito com utilização
do carbono-14, eficiente recurso de datação,
chegou-se à conclusão de que
remonta aos primórdios do Cristianismo.
Tem 1700 anos. Foi preservado graças
ao clima quente e seco, em cavernas no deserto
do Egito.
5
– Qual a relevância desse documento?
Nele Judas não é situado como
o traidor, que literalmente vendeu Jesus
por dinheiro. Teria sido o discípulo
mais importante, que recebera de Jesus a
missão de entregá-lo às
autoridades, livrando-o da casca humana
e coroando sua missão com o martírio.
Judas teria aceito a missão, mesmo
sabendo que seria execrado para sempre,
mas disposto a dar um supremo exemplo de
fidelidade a Jesus.
6
– Isso muda a História?
Não, porque, assim como ocorreu com
dezenas de outros Evangelhos, esse apenas
exprime a opinião de uma comunidade
que assim considerou a traição
de Judas. Não havia uma unidade de
pensamento na igreja primitiva. E cada uma
tendia a determinada interpretação
dos acontecimentos, conforme suas tendências
dando origem a dezenas de relatos evangélicos,
hoje considerados apócrifos, como
os evangelhos segundo Pedro, Paulo, Maria,
Madalena, Felipe, Nicodemos…
7
– O que se poderia dizer sobre o assunto,
à luz do Espiritismo?
No livro Crônicas de Além Túmulo,
psicografia de Francisco Cândido Xavier,
o Espírito Humberto de Campos reporta-se
a um encontro com Judas. Indagado a respeito
de sua participação no Drama
do Calvário, o apóstolo informou
que sua motivação em nenhum
momento foi o dinheiro. Ele tinha grande
admiração por Jesus e sua
doutrina, mas entendia que havia necessidade
de uma revolução para a implantação
daquelas idéias, com a derrota dos
romanos. Jesus jamais o faria. Então
imaginou que com sua prisão haveria
uma revolta popular, iniciando o movimento
libertador. No entanto, Jesus abortou essa
reação, que se esboçou
por ocasião de sua prisão.
Ralado de remorsos, Judas suicidou-se.
8
– Judas não seria o traidor
execrado; apenas o discípulo iludido?
Sem dúvida. Considere-se, em relação
ao assunto, a importância de uma historiografia
espiritual. Na medida em que a Doutrina
Espírita expandir-se poderemos, com
o concurso de médiuns respeitáveis
entrevistar as próprias personalidades
que fizeram a História, superando
idéias especulativas e equivocadas
que são disseminadas, principalmente
aquelas que envolvem acontecimentos da remota
Antigüidade.
|
|