|
1
– Por que os detalhes do nascimento
de Jesus, no glorioso Natal, constam apenas
do Evangelho de Lucas, sem nenhuma referência
nos demais?
A tradição nos diz que grande
parte do Evangelho de Lucas foi registrada
a partir das reminiscências de Maria,
mãe de Jesus. Faz sentido. Ela foi
uma testemunha ocular daqueles acontecimentos
inesquecíveis.
2
– Os pastores de Belém também
participaram. No entanto, situaram-se como
meros figurantes, desaparecendo em seguida.
A que atribuir o fato de terem permanecido
no anonimato, sem nenhum destaque no movimento
cristão?
Provavelmente apenas se deslumbraram, como
quem se empolga com fogos de artifício,
sem maior repercussão em suas vidas.
Simplesmente continuaram a cuidar de suas
ovelhas.
3
– Não é estranho que
isso tenha acontecido, tendo em vista a
os fenômenos maravilhosos que contemplaram
e, sobretudo, o seu encontro com o menino
Jesus, inspiração para toda
uma eternidade?
Entendo que eles apenas foram dignos representantes
de uma Humanidade capaz de empolgar-se com
fenômenos transcendentes, sem nenhum
envolvimento. Os homens permanecem, em grande
maioria, presos ao imediatismo terrestre.
Admiram as belezas do Céu, mas de
pés chumbados à Terra.
4
– Você acredita que isso esteja
ocorrendo também com o Espiritismo?
Os espíritas não constituem
exceção. Kardec considerava
que isso aconteceria. Falou até dos
que aceitam a Filosofia Espírita,
sem cumprirem seus princípios, quando
destaca, em O Livro dos Médiuns,
capítulo III, os espíritas
imperfeitos. Estes, em grande maioria, compreendem
o Espiritismo, admiram sua moral, mas não
a praticam, não mudam seus hábitos,
não se privam de seus gozos, não
combatem suas imperfeições.
Destaca, ainda, que os referidos consideram
a caridade cristã apenas uma bela
máxima.
5
– A Doutrina não repercute
em seu comportamento...
Pior do que aconteceu com os pastores de
Belém, porquanto os pastores observaram
fenômenos sem o respaldo de uma doutrina
orientadora, ao passo que o Espiritismo
nos oferece uma doutrina orientadora com
o respaldo de fenômenos maravilhosos
de intercâmbio com o Além que
autenticam seus princípios.
6
– Devemos debitar esse comportamento
à imperfeição humana?
Isso seria mera simplificação.
Assim como o Evangelho, o Espiritismo não
veio para uma minoria santificada. Então
o problema não é de mera imaturidade
humana, considerando que não somos
vegetais a crescer atendendo à Natureza.
Somos seres pensantes, dotados da capacidade
de mudar os rumos de nossa vida com a alavanca
da vontade, independentemente do estágio
de evolução em que nos encontramos.
7
– Você acredita que um Espírito
imperfeito possa mudar radicalmente o seu
comportamento simplesmente aderindo de coração
a um ideal?
Não é o que vemos todos os
dias, com criminosos que se regeneram, viciados
que se tornam virtuosos, pecadores que se
redimem? Jesus dizia que não viera
para os bons, mas para as ovelhas tresmalhadas,
para atender às pessoas de má
vida. O mesmo ocorre com o Espiritismo.
Consideremos, portanto, que nem Jesus nem
a Doutrina Espírita vieram para atender
aos santos.
8
– Essa disposição de
mudar, de se regenerar, de superar mazelas
e imperfeições não
surge a partir de certa maturidade do indivíduo?
Eu diria que a maturidade é efeito,
não causa. A partir do momento em
que o indivíduo cai em si, conforme
a parábola do filho pródigo,
dispondo-se a caminhar ao encontro de Deus,
começa a amadurecer. O filho pródigo
não revelou maturidade ao reconhecer
que estava longe de seu pai. Apenas reconheceu
sua miséria moral. Começou
a amadurecer quando se dispôs a caminhar
rumo à casa paterna. O mesmo acontece
com o simbolismo do Natal. Jesus nasce em
nosso coração não quando
viramos santos. Caminhamos para a santidade
quando Jesus nasce em nosso coração
e repercute em nossas ações.
|
|